O debate sobre os limites dos procedimentos estéticos, reacendido pela recente edição do Big Brother Brasil 26, transcendeu o entretenimento e se tornou um ponto de alerta crucial para a dermatologia e toda a comunidade de saúde e beleza. Casos de superexposição midiática, como lábios excessivamente volumosos e mandíbulas marcadas, expõem uma tendência preocupante: a busca por um rosto padronizado, muitas vezes em detrimento da identidade individual e da harmonia facial. Este fenômeno não apenas levanta questões éticas para os profissionais, mas também acende um sinal vermelho sobre os riscos de um envelhecimento precoce paradoxal, causado justamente pela tentativa de frear o tempo. A discussão, portanto, não é sobre ser contra ou a favor dos procedimentos, mas sobre encontrar o equilíbrio entre aprimoramento e descaracterização. O Panorama do Mercado Estético no Brasil: Números e Realidades Para entender a dimensão dessa questão, é preciso olhar para os números. O Brasil não é apenas um grande consumidor de estética; ele é uma potência global, ocupando a terceira posição no mercado mundial, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), realizamos cerca de 1,5 milhão de procedimentos estéticos por ano. A Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) vai além, apontando que em 2023 o país chegou a 3 milhões de intervenções, consolidando-se como um gigante do setor. Este mercado, que deve movimentar R$ 48 bilhões até 2025, vive uma expansão notável, inclusive para além dos grandes centros, com cidades como Itajaí (SC) se tornando polos de harmonização facial e tratamentos corporais. Esse crescimento vertiginoso, projetado para alcançar US$ 41,6 bilhões até 2028 no Brasil (Mordor Intelligence), é impulsionado pela popularização de procedimentos minimamente invasivos, como a aplicação de toxina botulínica e preenchedores de ácido hialurônico. Contudo, essa mesma acessibilidade que democratiza a estética também abre portas para os excessos. Nesse cenário, o discernimento e a responsabilidade se tornam essenciais, e a busca por tratamentos dermatológicos avançados com profissionais que priorizam a ética e a avaliação individualizada é o caminho mais seguro para resultados satisfatórios e saudáveis. A alta demanda, que inclui um crescimento de 20% na estética masculina, exige uma reflexão profunda sobre os limites e as verdadeiras motivações por trás de cada procedimento. A Ciência por Trás dos Procedimentos: Mecanismos e Riscos do Excesso Compreender o mecanismo de ação dos tratamentos mais populares é fundamental para entender os riscos do exagero. Os preenchedores, majoritariamente à base de ácido hialurônico, são projetados para repor volume e redefinir contornos. Quando usados com parcimônia por um dermatologista experiente, eles restauram estruturas faciais perdidas com o envelhecimento, promovendo um resultado natural e rejuvenescedor. O problema surge com o excesso: a aplicação desmedida pode levar a projeções artificiais, distorção de traços e o temido “pillow face” (rosto de almofada), onde as feições perdem sua definição e parecem perpetuamente inchadas. Essa sobrecarga de produto pode, a longo prazo, estirar os tecidos e acelerar a flacidez, resultando em um envelhecimento precoce. Na contramão dessa volumização imediata, estão os bioestimuladores de colágeno. Esses ativos não preenchem, mas sim “ensinam” a pele a produzir seu próprio colágeno, a proteína responsável pela firmeza e elasticidade. O resultado é mais gradual, sutil e, acima de tudo, natural. Eles tratam a causa da flacidez, não apenas mascaram seus efeitos. No campo corporal, procedimentos como a lipoaspiração removem gordura localizada através de cânulas para modelar o contorno. No entanto, a popularização de termos como “megalipo” acende um alerta: a remoção de volumes excessivos de gordura em uma única sessão aumenta exponencialmente os riscos cirúrgicos e pode resultar em flacidez residual severa e irregularidades na pele, exigindo múltiplos procedimentos corretivos posteriores. A Era do “Quiet Beauty”: A Contrarreforma da Estética Natural Como resposta direta à fadiga dos exageros e da padronização facial, surge uma nova filosofia na dermatologia: o “Quiet Beauty” (Beleza Silenciosa). Este conceito não prega a abolição dos procedimentos, mas sim uma abordagem mais inteligente, estratégica e personalizada. O objetivo não é transformar, mas sim otimizar a beleza única de cada paciente, promovendo frescor e saúde sem que ninguém precise perguntar “o que você fez no rosto?”. A beleza silenciosa é aquela que gera elogios como “você parece descansada” ou “sua pele está incrível”, em vez de apontar diretamente para uma intervenção. Essa tendência valoriza tecnologias e tratamentos que promovem a saúde da pele de dentro para fora. Os bioestimuladores de colágeno são os protagonistas, pois constroem uma base sólida de firmeza e qualidade dérmica. Associados a eles, entram em cena os lasers não ablativos e os peelings químicos leves, que melhoram a textura e o tom da pele sem exigir um longo tempo de recuperação. Além disso, o conceito de “Quiet Beauty” integra o uso de cosmecêuticos de alta performance no dia a dia. Fórmulas ricas em peptídeos bioativos, antioxidantes potentes, fatores de crescimento e retinoides de última geração são fundamentais para manter e potencializar os resultados obtidos em consultório. É uma abordagem holística que entende que os cuidados com a pele são uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Estudos de Caso e a Perspectiva dos Especialistas: O Que Aprender com os Exageros? Os casos que ganham notoriedade na mídia, como o da influenciadora Aline Campos, servem como estudos de caso práticos sobre a perda da harmonia natural. Um volume excessivo nos lábios e um contorno mandibular exageradamente marcado podem criar uma aparência desproporcional, que destoa da estrutura facial original do indivíduo. Já o caso da atriz Solange Couto, que após uma cirurgia bariátrica e a perda de 40 kg passou por um combo de lipoaspiração, abdominoplastia e mamoplastia, ilustra outro ponto crucial: o planejamento. Embora os resultados possam ter melhorado sua autoestima, especialistas alertam que combinar múltiplos procedimentos cirúrgicos extensos aumenta os riscos e exige uma avaliação rigorosa do estado de saúde, elasticidade da pele e estabilidade do peso. É aqui que a voz da experiência médica se torna indispensável. O biomédico Dieick de Sá resume a questão de forma lapidar: “O profissional ético sabe dizer não”. Esse “não” é um ato de responsabilidade, protegendo o paciente de seus próprios impulsos e da pressão estética das redes sociais. A dermatologista Marília Acioli reforça o alerta sobre os riscos dos exageros vistos no BBB 26, enquanto cirurgiões plásticos como o Dr. Jairo reforçam que a segurança e um planejamento personalizado devem sempre vir antes do desejo estético puramente impulsivo. A mensagem uníssona dos especialistas é clara: o melhor procedimento é aquele que respeita a individualidade e a saúde do paciente. Navegando o Futuro da Dermatologia Estética: Ética, Regulamentação e Boas Práticas As previsões para o futuro da área, especialmente a partir de 2026, apontam para uma maturação do mercado. Espera-se a implementação de regulamentações mais rígidas, que elevarão as exigências técnicas e de segurança, valorizando o especialista ético e altamente qualificado em detrimento do profissional generalista que oferece “pacotes” de procedimentos sem uma avaliação aprofundada. O foco se deslocará cada vez mais da transformação radical para a otimização natural, consolidando a filosofia “Quiet Beauty” como o padrão-ouro da dermatologia estética. Enquanto o mercado global de estética projeta alcançar a impressionante marca de US$ 580 bilhões até 2027 (McKinsey), o crescimento será acompanhado por um consumidor mais informado e exigente. A tecnologia continuará a evoluir, com bioestimuladores mais eficazes e lasers de performance superior, mas o grande diferencial será o fator humano: a capacidade do dermatologista de diagnosticar, planejar um tratamento de longo prazo e, principalmente, educar o paciente sobre o que é realista, seguro e benéfico para sua identidade e bem-estar. A era da “beleza em série” está com os dias contados, dando lugar à celebração da singularidade. Recomendações dos Especialistas do SKIN TODAY Priorize o Planejamento Individualizado: Abandone a ideia de “pacotes prontos” ou de replicar o resultado visto em outra pessoa. Uma consulta detalhada com um dermatologista é o primeiro e mais importante passo. Nela, serão avaliadas sua estrutura facial, qualidade da pele e objetivos, traçando um plano de tratamento exclusivo para você, que pode combinar diferentes tecnologias ao longo do tempo. Construa uma Base Sólida com Bioestimuladores: Antes de pensar em volumizar, pense em firmar. Pense nos bioestimuladores como a fundação de uma casa. Ao estimular a produção natural de colágeno, eles melhoram a qualidade geral da pele, combatem a flacidez e criam uma estrutura de suporte muito mais saudável. Preenchedores, se necessários, entrarão depois como um acabamento refinado, e não como a estrutura principal. Encare a Dermatologia como uma Parceria de Longo Prazo: Resultados estéticos duradouros e naturais não são obtidos com soluções rápidas. Encare seu dermatologista como um parceiro na jornada de envelhecimento saudável. Isso envolve um plano contínuo que inclui procedimentos no consultório, uma rotina de skincare com cosmecêuticos adequados e ajustes periódicos para manter a saúde e a vitalidade da sua pele ao longo dos anos. A verdadeira beleza não está na busca por um padrão, mas na celebração da sua identidade. Segurança, ética e saúde devem sempre preceder o desejo estético, garantindo que cada procedimento seja um passo em direção ao bem-estar, e não ao apagamento de quem você é.



