A recente visibilidade de reality shows como o BBB 26 reacendeu um debate crucial no universo da dermatologia e da estética: a linha tênue entre a busca por aprimoramento e o exagero em procedimentos. Casos de figuras públicas com lábios excessivamente volumosos, mandíbulas marcadas de forma artificial e uma sucessão de intervenções pós-bariátrica servem como um poderoso alerta sobre os riscos da padronização facial, da perda de identidade e até mesmo de um envelhecimento precoce paradoxal. Este cenário, impulsionado por uma cultura de imagem intensa nas redes sociais, exige uma análise aprofundada sobre as tendências, os números do mercado e, acima de tudo, a responsabilidade ética dos profissionais que atuam na linha de frente dos cuidados com a pele. A discussão vai além da estética e toca em pontos sensíveis como saúde, segurança e bem-estar. A busca por resultados harmoniosos e seguros passa, invariavelmente, pela escolha de um profissional qualificado. Em uma clínica de dermatologia especializada, o diálogo aberto e a análise individualizada são a base para qualquer plano de tratamento, garantindo que o desejo do paciente esteja alinhado com as possibilidades reais e seguras da medicina. Profissionais como a biomédica Dieick de Sá e a dermatologista Marília Acioli reforçam a importância de uma abordagem que priorize a saúde e a naturalidade, muitas vezes “sabendo dizer não” a pedidos que podem comprometer a harmonia e as características únicas de cada indivíduo. Radiografia de um Mercado em Plena Expansão: Números e Tendências Para entender a dimensão deste fenômeno, é preciso olhar para os dados. O Brasil se consolidou como o terceiro maior mercado global de estética, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, movimentando uma fatia impressionante de 4% do PIB nacional, segundo o Sebrae. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) aponta que o país realiza cerca de 1,5 milhão de procedimentos estéticos anualmente. Em 2023, esse número chegou a 3 milhões, sendo 2 milhões cirúrgicos, o que nos colocou como líderes mundiais em cirurgias plásticas. O crescimento é robusto e contínuo: o mercado de estética, que deve atingir R$ 48 bilhões em 2025, tem projeção de alcançar US$ 41,6 bilhões até 2028, segundo a Mordor Intelligence. O perfil do consumidor também está mudando. A busca por procedimentos estéticos masculinos, por exemplo, cresceu 20% em 2025, com um aumento de 95% em cirurgias e 116% em procedimentos não cirúrgicos para este público entre 2018 e 2024, de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). Outra tendência marcante é a supremacia dos procedimentos minimamente invasivos sobre as cirurgias. A aplicação de toxinas botulínicas e preenchedores de ácido hialurônico representa um mercado de 9,6 bilhões de euros (aproximadamente R$ 59,6 bilhões) em 2025. A projeção da McKinsey aponta para um crescimento global anual de 6% até 2027, e uma análise mais focada prevê um avanço de 5% ao ano até 2030, impulsionado pela busca por autocuidado e pela influência digital. A Ciência por Trás da Beleza: Bioestimulação vs. Volumização Excessiva O debate sobre excessos nos leva diretamente aos fundamentos científicos dos tratamentos. Os preenchedores injetáveis, especialmente o ácido hialurônico, são ferramentas fantásticas para repor volume perdido e definir contornos. No entanto, seu uso desmedido pode levar à “pillow face” (rosto de almofada) e a projeções artificiais que distorcem a anatomia natural, causando um aspecto envelhecido e padronizado. É aqui que a dermatologia moderna propõe uma mudança de paradigma: priorizar a qualidade da pele antes de simplesmente adicionar volume. A bioestimulação de colágeno surge como protagonista nesta abordagem. Ao invés de preencher, este tratamento estimula o próprio organismo a produzir mais colágeno, resultando em uma pele mais firme, elástica e com uma estrutura dérmica mais saudável. O resultado é uma melhora global e natural, que serve de base para retoques pontuais e mais discretos com preenchedores, se necessário. No campo cirúrgico, procedimentos como a “Megalipo”, que remove gordura localizada de múltiplas áreas do corpo por meio de cânulas, exigem planejamento minucioso, especialmente em pacientes pós-bariátricos. O caso da atriz Solange Couto, que eliminou 40 kg após uma cirurgia bariátrica em 2013 e posteriormente realizou lipoaspiração, abdominoplastia e mamoplastia, ilustra a complexidade e a necessidade de uma abordagem progressiva. Especialistas alertam que é fundamental avaliar a estabilidade do peso, o estado nutricional do paciente e a qualidade da pele (flacidez) antes de combinar múltiplos procedimentos, a fim de garantir não apenas o resultado estético, mas principalmente a segurança e a funcionalidade do corpo. Quiet Beauty e o Futuro da Estética: Tecnologia e Ética Em resposta à saturação de resultados exagerados, uma nova tendência ganha força no mercado: a “Quiet Beauty” (Beleza Silenciosa). Este conceito valoriza o uso de tecnologias de alta performance e minimamente invasivas, como lasers de última geração, peelings químicos controlados e microinjeções precisas, para promover uma melhora gradual e sofisticada. O foco sai do “mudar” para o “otimizar”. No lugar de transformações radicais, busca-se a saúde metabólica da pele e uma sinergia sensorial onde o bem-estar e a aparência andam juntos. Essa abordagem também considera a sazonalidade, evitando tratamentos ablativos agressivos durante o verão, por exemplo, e integrando o uso de cosmecêuticos avançados para preparar a pele e potencializar os resultados dos procedimentos em consultório. Paralelamente, o setor se prepara para um marco regulatório importante. A partir de 2026, novas diretrizes da Anvisa aumentarão a exigência sobre infraestrutura, biossegurança e rastreabilidade dos produtos utilizados em clínicas de estética. Essa maturação do mercado é vista como essencial para elevar o padrão de qualidade e segurança, favorecendo profissionais e clínicas que já trabalham com rigor técnico e ético. A era dos “generalistas” tende a dar lugar a uma valorização crescente de especialistas com profundo conhecimento em dermatologia e cirurgia plástica, capazes de oferecer diagnósticos precisos e planos de tratamento verdadeiramente personalizados. Da Teoria à Prática: Protocolos Individualizados e a Visão dos Especialistas A aplicação prática desses conceitos varia conforme o perfil do paciente. Para um perfil mais jovem, como o de Aline Campos, a recomendação de especialistas éticos seria focar na prevenção e na qualidade da pele com bioestimuladores e, se necessário, realizar ajustes pontuais de gordura ou contorno, evitando o excesso de preenchimentos que podem comprometer a harmonia a longo prazo. Já em casos de grande perda de peso, como o de Solange Couto, o protocolo ideal é progressivo: estabilizar o peso, tratar a flacidez com tecnologias apropriadas e, então, planejar as cirurgias de contorno corporal (lipoaspiração, abdominoplastia) de forma faseada, priorizando a autoestima e a funcionalidade, com cicatrizes planejadas para serem as mais discretas possível. A opinião de dermatologistas e cirurgiões renomados converge em um ponto central: a segurança e a ética devem prevalecer sobre o desejo imediato. Como resume o Dr. Jairo, a segurança deve vir antes do desejo estético, personalizando cada abordagem, especialmente após grandes perdas de peso. Esta filosofia de “saber dizer não” é o que diferencia o profissional que vende procedimentos daquele que promove saúde e beleza de forma responsável. A pressão midiática e a comparação constante em redes sociais amplificam distorções de imagem e criam uma demanda por resultados irreais, tornando o papel orientador do especialista ainda mais vital. A busca por informações em fontes confiáveis como a SBCP e a ISAPS é um passo fundamental para pacientes que desejam tomar decisões conscientes sobre seu corpo. Recomendações dos Especialistas do SKIN TODAY Invista na Qualidade da Pele Antes do Volume: Antes de pensar em preenchimentos para volumizar, converse com seu dermatologista sobre protocolos de bioestimulação de colágeno. Uma pele mais firme e estruturada serve como uma base muito melhor para qualquer procedimento subsequente, garantindo resultados mais naturais e duradouros. Planejamento e Paciência São Seus Melhores Aliados: Desconfie de soluções milagrosas e “combos” de procedimentos agressivos oferecidos sem uma avaliação clínica detalhada. Para transformações significativas, como as pós-bariátricas, abrace um plano de tratamento progressivo e faseado, que respeite o tempo de recuperação do seu corpo e priorize a segurança. Escolha seu Profissional com Rigor: Verifique as credenciais do médico (se é membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia ou da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), pesquise sobre a clínica e priorize especialistas que promovam um diálogo aberto. Um bom profissional é aquele que alinha suas expectativas à realidade, explica os riscos e, se necessário, tem a ética de dizer “não”. “O excesso envelhece. A busca desenfreada por preenchimentos e procedimentos padronizados pode, paradoxalmente, acelerar a percepção de envelhecimento e apagar a beleza individual. A verdadeira sofisticação na dermatologia estética moderna está em priorizar a bioestimulação, a qualidade da pele e a ética profissional. É preciso saber dizer não para preservar a identidade e a saúde do paciente.” – Insight baseado na opinião do biomédico Dieick de Sá.



